Wynonie Harris: do primeiro rock à influência em Elvis Presley

A morte do lendário Little Richard, no último dia 9, aos 87 anos, ligou um alerta. As novas gerações desconhecem os protagonistas de uma das maiores transformações musicais dos últimos 70 anos.

Em resumo, precisamos falar com mais frequência desses mestres: Little Richard, Chuck Berry, Eddie Cochran, Bill Haley, Fats Domino, entre tantos outros.

O Blog n’ Roll fará sua parte a partir de hoje. E se você passou a conhecer o Little Richard por causa do destaque dado à sua morte em portais como UOL, Globo.com, entre outros, acompanhe!

Os primórdios

Antes de falarmos de rock, precisamos entender suas origens. O rock and roll em sua essência era uma música afro-americana. Até chegarmos ao rock em si, tivemos que conhecer antes o blues rural do início do século 20, o blues urbano, o gospel e o jump band jazz. O folk e o country, tradicionais estilos brancos, também contribuíram para os ingredientes do rock. Esses gêneros, no entanto, são assuntos para uma outra série aqui.

Podemos dizer que a primeira leva de artistas roqueiros contava com Wynonie Harris, Roy Brown, Goree Carter, Buddy Holly, Elvis Presley, Little Richard, Chuck Berry, Jerry Lee Lewis, Ike Turner, Bill Haley, Carl Perkins, Bo Didley, Gene Vincent, Fats Domino, Ritchie Valens, The Everly Brothers, Eddie Cochran, Dion, Link Wray, Roy Orbison, Alan Freed e Ricky Nelson. Isso se falarmos de 1948 até 1959. Ou seja, alguns nomes podem ser mais identificados com outros gêneros do que o rock propriamente dito.

Wynonie Harris

O primeiro da lista é Wynonie Harris. Não quero cravar o artista como primeiro nome do rock, longe dessa responsabilidade. Mas ele teve a sua participação. Com o single Good Rockin’ Tonight, música de Roy Brown, ele se posicionou como um dos primeiros artistas de rock. Isso em 1948, muito antes da primeira vez que falaram em um gênero musical chamado rock and roll.

À época, Harris tinha 33 anos. Nascido no Nebraska, ele era mais identificado como um blues shouter (cantor de blues que precisa gritar para ser ouvido diante dos demais instrumentos da banda).

Entre 1946 e 1952, Harris emplacou 15 hits no top 10. Era conhecido pelas canções com letras bem-humoradas. Por conta do sucesso de Good Rockin’ Tonight, ele foi apontado por alguns estudiosos da música como “um dos pais do rock and roll”.

Até iniciar a carreira na música, Harris não teve uma vida fácil. Sua mãe o pariu quando tinha apenas 15 anos. O pai dele nunca apareceu. A primeira figura paterna foi Luther Harris, em 1920, que casou com a sua mãe quando ele tinha 5 anos.

Harris, aos 16 anos, abandonou os estudos em North Omaha. Teve o primeiro filho no ano seguinte. O segundo veio dez meses depois. Foi um com cada mulher, sendo que ambos foram criados pelas mães. Ainda teve um terceiro filho, aos 21 anos, com uma terceira mulher. Quatro anos mais nova, Olive E. Goodlow casou com o músico.

O início na música

A primeira atividade na música veio com o grupo Five Echoes. Posteriormente, ocupou as funções de cantor e guitarrista da Preston Love. Entre 1934 e 1940, Harris virou uma personalidade em Omaha. Enquanto os Estados Unidos se recuperava da Grande Depressão, o músico ganhava a vida nos bares da cidade.

Depois de algumas viagens para Kansas City, onde aprendeu muito de blues com Jimmy Rushing e Big Joe Turner, Harris foi embora para Los Angeles com a esposa, em 1940.

O mundo, no entanto, estava de cabeça para baixo: Grande Depressão, Segunda Guerra Mundial, além da maior greve da indústria fonográfica de todos os tempos. Entre 1942 e 1944, a Federação Americana de Músicos iniciou uma paralisação das atividades por causa de divergências quanto ao pagamento de royalties. Por conta disso, nenhum músico sindicalizado poderia fazer gravações comerciais para gravadoras. Poderiam participar de programas de rádios, mas não poderiam fazer gravações em estúdio.

Imagina isso hoje? Os artistas se rebelam por conta da forma como recebem seus direitos nas plataformas de streaming e interrompe a produção por dois anos. Basicamente isso.

As bandas sindicais eram bem fortes na época. Logo depois do término da greve, os vocalistas desses grupos viraram as grandes estrelas da música norte-americana.

Parceria com Lucky Millinder

Voltando a Harris, a greve atrapalhou seus planos, mas o músico aproveitou para tocar o máximo que pudesse em bares. Em Chicago, por exemplo, foi visto por Lucky Millinder, que o convocou para acompanhar em uma turnê. Aí já estamos em 1944.

A sequência de shows fez com que Harris e a esposa se mudassem para Nova York, no mesmo ano. Junto com Millinder, o músico passou a fazer residências no Harlem.

Com o fim da greve, Harris, enfim, gravou o seu primeiro som. Foi Hurry Hurry!, junto com Millinder. Na sequência também registrou Who Threw the Whiskey in the Well. Essa segunda, por sinal, pode soar familiar para os fãs do Aerosmith. Um trechinho dela foi inserida no fim de Amazing, um dos hits do Get a Grip.

Após o término da Segunda Guerra Mundial, Millinder e Harris embarcaram em uma grande turnê pelos Estados Unidos. Desentendimentos, no entanto, colocaram um ponto final na parceria. A banda de Millinder talvez tenha ficado pequena para o talento de Harris.

Carreira solo de Wynonie Harris

Curiosamente, Who Threw the Whiskey in the Well foi lançada um ano após ter sido gravada. Por conta de um embargo dos lançamentos durante a Segunda Guerra Mundial, a canção só chegou ao público quando Millinder e Harris não falavam mais a mesma língua.

O single virou um sucesso estrondoso nos Estados Unidos. Alcançou o primeiro lugar na parada r&b da Billboard e colocou muito branco para dançar (a Terra do Tio Sam conseguia ser ainda mais racista que hoje).

Depois de cinco meses sem sair das paradas, o hit abriu portas para Harris. De volta para Los Angeles, ele assinou com a Philo.

Com uma banda formada por Johnny Otis, Harris gravou Around the Clock. Mesmo sem ter alcançado o topo das paradas, ficou popular e recebeu inúmeras regravações.

Agente livre, tipo os atletas da NBA, o blueseiro gravou em outros lugares, como Apollo, Aladdin e Bullet.

Good Rockin’ Tonight

Na King Records, de Syd Nathan’s King, foi onde conquistou seus maiores feitos. E aí entra o cover de Good Rockin’ Tonight, de Roy Brown. Ouça e confira o quão rock pode ser essa faixa. Isso em 1948!!!

O sucesso de Good Rockin’ Tonight impulsionou a carreira. Sittin ‘on It All the Time e Bloodshot Eyes, cover de Hank Penny, ajudaram a popularizar ainda mais.

De 1954 até 1964, inúmeras mudanças de gravadora, mais uma penca de singles, hoje reunidos em diversas coletâneas. A fama, no entanto, subiu à cabeça. Harris quebrou, foi forçado a levar uma vida mais modesta.

Reta final de Wynonie Harris

Seus últimos anos de vida ainda foram produtivos. Gravou três singles para a Chess Records: The Comeback, Buzzard Luck e Conjured. O último show aconteceu no Apollo, em novembro de 1967, quando dividiu a noite com Big Joe Turner, Big Mama Thornton, Jimmy Witherspoon e T-Bone Walker.

Harris morreu de câncer de esôfago em 14 de junho de 1969, aos 53 anos, em Los Angeles.

Influência em Elvis Presley

O legado dele, porém, não foi esquecido. Muitos biógrafos de Elvis Presley contam que o Rei do Rock ficou fissurado pelo vocal e o jeito solto de Harris no palco.

Uma passagem curiosa entre os dois artistas aconteceu em 1956, quando Harris declarou em uma entrevista que realmente tinha algo dele em Elvis. “Muitas pessoas têm lhe dado problemas para balançar os quadris. Eu balanço os meus e não tenho problemas. Ele tem publicidade que eu não poderia comprar”.

Bibliografia

Rock Roots
Rock and Roll – Uma História Social – Paul Friendlander
Unsung Heroes of Rock’n’Roll – Nick Tosches (1999)
The Blues: From Robert Johnson to Robert Cray – Tony Russell (1997)

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