Entrevista | Caio Dubfones – “É uma nova encarnação do Radiola Santa Rosa”

Crédito: Andressa Passetti

Entre 2004 e 2007, o Radiola Santa Rosa deixou uma marca importante no cenário musical da região. O álbum de estreia, Disqueria (2004), trouxe uma dupla fortemente influenciada por Beastie Boys. O reconhecimento foi imediato. MTV passou a veicular um videoclipe do duo, enquanto a mídia paulistana passou a festejar o trabalho de Caio Dubfones (aka Caio Bosco) e Beto Machado.

Treze anos após o término da parceria, Caio retomou os serviços com a Radiola Santa Rosa. O primeiro single dessa nova fase é Antídoto, que estreia na sexta-feira nas plataformas de streaming. Sem Beto, que não aceitou o convite, Caio terá as participações especiais de Monkey Jhayam e Alienação Afrofuturista.

O que motivou o retorno do Radiola Santa Rosa?

Posso dizer que o primeiro incentivo que tive para retornar o projeto foi uma enquete feita por vocês do Blog n’ Roll no ano passado sobre as bandas mais influentes da região e o Radiola estava lá! Para mim foi surpreendente porque o Radiola teve suas atividades interrompidas no final de 2007 e nesse tempo todo me dediquei à minha carreira solo como cantor, compositor e guitarrista.

Mesmo sem nem mesmo passar pela minha cabeça em voltar a ser um MC e trabalhar com hip hop novamente, a ideia de saber que o Radiola ainda era relevante (até então para mim somente em uma pequenina esfera local) e que tem pessoas que carregam no coração mensagens que irradiei há quase duas décadas atrás, me fizeram querer retornar e dar para essas pessoas uma nova encarnação do Radiola Santa Rosa, que carrega todos os elementos do início, mais todas as minhas pesquisas como músico e compositor por mais de uma década.

O que você nota de diferença entre o atual cenário e o período que o Radiola estreou?

Completamente outra coisa! Sou um remanescente tardio da era de ouro do rap americano dos anos 90 e que só apareceu no Brasil, como produção local, uma década depois. Aprendemos a chamar essa música maravilhosa de “Boom Bap”, e ela é sempre simples, crua, orgânica, mas feita eletronicamente com samples (de preferência tirados dos LPs garimpados). Hoje é a era do Trap, uma produção muito mais clínica, cirúrgica, complexa e totalmente automatizada.

Na primeira metade de 2000, quando o Radiola Santa Rosa estava se formando e preparando o seu primeiro álbum, era muito difícil e caro produzir de maneira independente música rap com qualidade técnica no Brasil, praticamente não existia a palavra beatmaker.

Os grupos de rap não tinham instrumentais próprios (isso só começou a mudar a partir de 2002 com a democratização da internet e dos programas). Os softwares eram eficientes, mas ainda precários; não existiam samplers à venda e se você com muita luta achasse um, o preço era inviável e impossível.

Existiam raríssimos meios de informações e não existiam revistas que abordassem aspectos técnicos de produção de hip hop. Era muito caro para um artista ter fotos promocionais e materiais gráficos de qualidade. Não sabíamos o que era um press release e nem conhecíamos jornalistas para escrevê-los um. O alcance era local, mas existia sempre um público faminto em se divertir e escutar os grupos da cidade.

Está mais fácil hoje?

Hoje tudo isso é bem fácil, mas todo mundo é artista (poucos produzem arte de fato) e ninguém quer ser mais público de ninguém, salvo se você for hype, uma palavra que aprendi a detestar desde adolescente com o Public Enemy.

Antídoto é o primeiro single dessa nova fase, certo? O que você pode falar sobre ele? Como foi a ideia de reunir essa turma?

Como disse antes, o Radiola ficou literalmente 13 anos sem nenhuma atividade, sem nenhuma página nas mídias sociais e sem nenhum contato com os ouvintes, salvo amigos próximos. Pois bem, quando comecei a produzir um novo material para o projeto, fiz uma conta no Facebook e Twitter, para divulgar as novidades e postar fotos antigas.

Coincidentemente, no mesmo dia que criei a conta, o Alienação Afrofuturista (MC de Curitiba e integrante do Machete Bomb) e o Monkey Jhayam (Toaster do sistema de som Africa Mãe do Leão e MC de São Paulo) me mandaram mensagens em separado dizendo que eram fãs e que estavam felizes com a volta do Radiola Santa Rosa.

Fiquei lisonjeado e surpreso, realmente não imaginava que, fora do meu círculo, alguém escutasse e admirasse o meu trabalho como MC e beatmaker, ainda mais artistas talentosos e brilhantes como eles.

Como eles já se conheciam, quando começamos a conversar, naturalmente veio a ideia de colaborarmos em uma faixa. Falei a eles que tinha alguns beats das minhas melhores safras à disposição, escolhemos juntos qual instrumental atacar e as rimas brotaram como as flores da primavera.

Quais são os próximos passos do Radiola? Tem chances de termos um EP, álbum?

Sim, teremos um álbum novo do Radiola Santa Rosa. Ele está todo gravado e no momento estou em processo de mixagem! A minha ideia é de lançar um single por mês com um lyric vídeo até lançar o álbum completo.

Não posso falar sobre o álbum porque se trata de algo conceitual nos moldes de The Who e Pink Floyd. Então se falar o conceito estrago a novidade do disco.

O atual momento para os artistas permite apenas lives. Você pretende investir nesse formato?

No momento, penso somente em terminar e lançar o álbum do Radiola Santa Rosa! Não tenho nenhuma ideia de como será o futuro. Fazer previsões e planos em um mar tão revolto não me parece inteligente. Nesse momento em que todo mundo se acotovela por sucesso virtual, prefiro me concentrar 100% em fazer uma verdadeira obra de arte.

O que você traz de influências para essa nova etapa do Radiola?

Hip Hop Golden Era e Tropicalismo! Basicamente rimas em cima de beats feitos com samples de vinil, buscando a elegância da French Touch e as inovações do cinema avant-garde.

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