Amy Winehouse: vida e música

No dia 23 de julho de 2011, perdíamos um dos grandes ícones do jazz e soul contemporâneo. Com seu enorme talento musical, Amy Winehouse consagrou-se como uma das artistas mais influentes da década a partir de ecléticas combinações musicais e suas diferentes percepções artísticas.

A paixão pela música veio da infância, considerando suas raízes familiares. Vinda de uma família de músicos de jazz, Amy sempre teve o estilo como parte de seu cotidiano, cercada por clássicos como Ella Fitzgerald e Frank Sinatra. Com a ajuda do irmão mais velho, Alex Winehouse, aprendeu a tocar guitarra, o que a conduziu pela paixão às harmonias. E foi ouvindo artistas como Thelonious Monk, Dinah Washington e Sarah Vaughan que aprendeu a cantar.

A cantora via no realismo do hip hop de grupos femininos como Salt-n-Pepa a chave para a liberdade de pensamento. Amy as caracterizava como “mulheres reais, que não tinham medo de falar sobre os homens, conseguiam tudo o que queriam e falavam sobre garotas de quem não gostavam”. Com forte personalidade, ela começou sua carreira artística aos dez anos, quando fundou com a amiga de infância Juliette Ashby a banda de rap amadora Sweet ‘n’ Sour.

Em 1996, Amy organizou uma audição em seu colégio e interpretou uma canção da Broadway com grande maestria. O que lhe garantiu uma bolsa de estudos na Brit Performing Arts and Technology School, para concentrar-se em estudos artísticos variados, como dança, atuação e canto.

Com tamanha influência aos 14 anos, começou a se apresentar em pequenos clubes de jazz londrinos no ano seguinte, ao mesmo tempo em que compôs suas primeiras canções. Muitos vídeos da juventude de Amy foram exibidos no documentário Amy (2015), vencedor do Oscar e uma fonte preciosa de imagens e entrevistas da artista antes da fama.

Sua brilhante carreira foi ocultada pelas sombras de sua vida pessoal. E foi ainda na adolescência que eles começaram a surgir, época em que começou a enfrentar a bulimia e experimentar drogas. Muito de sua rebeldia e conflitos pessoais veio de sua relação com seu pai, Mitchell Winehouse.

O divórcio dos pais afetou muito a garota que encontrou na arte e nas drogas suas principais válvulas de escape. Enfrentou expulsões em várias escolas, diversas repreensões e muitas dificuldades. Mas foi aceita em projetos musicais como os vocais na National Youth Jazz Orchestra, com quem se apresentou frequentemente a partir de 1999.

Seu caminho pela indústria não foi apenas mensurado pelo talento vocal. Amy possuía grande percepção de negócios, entrando no mundo do espetáculo com forte conhecimento de agenciamento e management. Depois, assinou seu primeiro contrato de publicação com a EMI Music, embarcando na criação de composições.

Por fim, o contrato de gravação com a editora e uma de suas subsidiárias, a Island Records, lhe colocou mais próxima de seus primeiros lançamentos. Entre seus primeiros singles, os destaques são Amy Amy Amy e October Song, ambas muito populares nas rádios britânicas.

Considerado “uma mistura brilhante de funk, jazz e soul” pelos críticos do New York Times, além de muitas outras críticas positivas, o álbum de estreia de Amy Winehouse reúne a autenticidade e poesia já esperada pelos fãs da artista. Frank (2003), disco nomeado em homenagem ao seu grande ídolo Frank Sinatra, conquistou uma tripla certificação de platina no Reino Unido e 4 milhões de cópias vendidas ao redor do mundo.

Amy brincava com a própria voz, assumindo diferentes nuances para cada emoção carregada em suas canções. Seu relacionamento com Chris Taylor, um repórter sete anos mais velho que ela, é o principal tema de muitas das canções. Outro assunto recorrente são os problemas familiares, que trazem forte carga emocional aos seus versos.

Os problemas com figuras masculinas são uma constante na vida dela, tanto em seu relacionamento com seu pai como com namorados. Amor e sofrimento funcionam como sinônimos entre muitas das faixas do disco, como What Is It About Men?You Sent Me Flying.

Soul, jazz, reggae e R&B são frequentes em Frank, mas os traços de neo soul (subgênero que incorpora mais da black music setentista, como funk e hip hop) são uma surpresa na promoção de novos ritmos. De certo, o álbum mostra a versatilidade de Amy, carregado de uma energia única em toda sua discografia.

A essência da paixão da artista pela música, aqui no ápice de sua criatividade, representa para muitos o ponto mais forte da carreira de Amy. A versão deluxe de Frank, lançada em 2008, inclui todos os principais singles da cantora, desde Stronger Than Me, Know You Now, Fuck Me Pumps e October Song até demos e edições ao vivo de Take the Box e In My Bed.

Precursora da Nova Invasão Britânica, Amy Winehouse tornou-se um sucesso imediato ao trazer o jazz ao universo pop. Sugada pela gravadora e pelos contratos assinados, ela passou anos conturbados durante a divulgação promocional de seu álbum de estreia.

Afastada da escrita criativa e fontes construtivas de inspiração, ela sofreu 18 meses com “bloqueio de escritor”. Somado a isso, ainda teve o relacionamento conturbado com o assistente de vídeo Blake Fielder-Civil; comprometido, ele a abandonou pouco tempo depois. Além do coração partido, a cantora também enfrentou um forte período de luto após a morte de sua avó, a quem era bem apegada.

A sequência de eventos turbulentos em sua vida pessoal fez com que Amy embarcasse em tempos sombrios. O consumo excessivo de drogas e álcool, além de transtornos alimentares severos, como a bulimia nervosa, resultaram em uma rápida perda de peso. Seu comportamento autodestrutivo foi acentuado pela constante exposição à mídia: a imprensa britânica alimentou-se da ruína pessoal, conduzindo intensa pressão por parte de seus empresários.

Esgotada, Amy recusou o internamento em clínicas de reabilitação, rompeu seu contrato de gestão e marchou rumo às gravações. Em cinco meses, transformou todas as amarguras e vícios em inspirações para o novo disco. Assim surgiu Back to Black (2006), um projeto muito mais autorreflexivo e consciente do que sua obra de estreia.

A cantora afirmou que teve no produtor Mark Ronson, conhecido atualmente por trabalhar com artistas como Bruno Mars, uma de suas maiores motivações para este material. Totalmente exposta, Amy se confessa nos versos do seu segundo álbum, principalmente no carro-chefe de seu disco, Rehab.

Nesta fase, ela muda seu estilo, suas roupas, e principalmente sua atitude. Torna seus medos, desejos, fracassos e ambições em poesia com a sinceridade de uma criança. Menos elitista que seu disco de estreia, Back to Black logo torna-se um sucesso comercial, conduzindo o nome de Amy Winehouse ao estrelato e atingindo 20 milhões de vendas pelo mundo.

Canções como You Know I’m No Good, Some Unholy War e Love Is a Losing Game trazem o melhor e mais acessível do jazz e soul, enquanto Just Friends e Tears Dry On Their Own apostam em ritmos mais acelerados e cativantes. As referências ao reggae aumentam, juntamente com o ska e o R&B contemporâneo. Com maior controle sobre seu processo criativo, Amy considerou este seu material mais satisfatório e verdadeiro.

A faixa homônima, Back to Black, é uma imersão tão forte quanto Wake Up Alone, ambas odes à depressão e solidão. Entre seus desabafos, Amy dá múltiplos tons às suas mágoas, lutando contra o constante sofrimento que pesa em sua vida.

No início de 2007, a popularidade de Amy se baseava em seus inúmeros episódios de embriaguez em entrevistas e aparições públicas, ou abandono de apresentações sem sequer concluir a primeira canção. Simultaneamente, tornava-se uma das artistas britânicas mais bem-sucedidas em território americano, com shows lotados, enorme prestígio, forte recepção dos fãs, ensaios para capas de revistas como Rolling Stone e Spin.

Porém, em sua vida pessoal, as coisas iam de mal a pior. Amy retomou seu relacionamento com Fielder-Civil, com quem se casou no mesmo ano. Quando os tabloides descobriram que o marido era o responsável por apresentar substâncias mais fortes à cantora, não hesitaram em denunciar seus inúmeros escândalos públicos. O principal deles foi uma detenção por posse de maconha na Noruega, que ofuscou de vez sua imagem pública.

Amy internou-se repetidas vezes em centros de reabilitação, resultando no cancelamento de inúmeras apresentações. A imprensa sensacionalista insistia nas caracterizações mais depreciativas possíveis, destruindo sua reputação. Segundo fontes próximas à cantora, que aparecem em seu documentário biográfico, ela foi impedida de se tratar tanto pela gravadora como por Blake, com quem manteve um relacionamento abusivo por quase toda sua vida.

Mesmo sendo a artista britânica mais premiada no Grammy em apenas uma edição (2008), sua ascensão profissional não impediu sua vida pessoal de cair cada vez mais fundo. Altamente exposta pelos tabloides, todos os seus passos eram motivo de chacota constante. A prisão de seu marido por agressão serviu para agravar ainda mais seu estado emocional e físico. Debilitada, Amy encerrou o agendamento de novos shows e viajou para o Caribe, iniciando um tratamento intensivo contra seus vícios.

Seus últimos anos incluíram a tentativa falha de gravação de um terceiro disco, participações fracas em festivais e programas televisivos e um divórcio conturbado contra Blake, acusado de adultério. A soma desses fatores conduzia um processo triste de autodestruição que culminou em sua morte, em 2011.

Suas colaborações com inúmeros artistas e imensas contribuições musicais, principalmente ao jazz e soul, são seu precioso legado. Amy Winehouse destacou-se pelo ecletismo de suas composições, demonstrando domínio de gêneros contemporâneos e retrôs e uma mente sempre aberta para novas possibilidades musicais.

Para homenageá-la à altura de seu talento e paixão, deixo como última recomendação musical desta relação uma versão de Body and Soul, que Amy canta ao lado do mestre Tony Bennett, um duo que definitivamente carrega a essência da grande Voz Britânica. Descanse em paz, Amy.

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