Crítica | O Escândalo

O Cine Roxy, em Santos, recebeu a pré-estreia do filme O Escândalo na última terça-feira (14). O longa dirigido por Jay Roach tem três indicações ao Oscar 2020. Além desta enorme honra cinematográfica, a obra já recebeu prêmios no Producers Guild of America Awards 2019 e 25º Critics’ Choice Movie Awards.

O filme é inspirado no escândalo que envolveu a emissora Fox News, em 2014. O executivo Roger Ailes foi acusado de assédio sexual e moral, no ambiente de trabalho, por suas funcionárias. Depois da enorme exibição do tema, ele foi demitido. Esse é o roteiro inteiramente baseado nesta história, mas nomes e diálogos foram alterados para preservar fontes.

Vale lembrar que a obra fala sobre três pilares da sociedade: política, controle de massa e poder das mídias sociais e imprensa. O filme é sobre a elite e com a elite. Durante os 114 minutos, nenhum personagem negro aparece.

O filme começa com foco em Megyn Kelly, âncora do jornal do horário nobre da Fox. A jornalista dialoga com o telespectador, mostrando a emissora e o significado de cada ambiente. O segundo andar é o mais temido pelos funcionários, afinal, o chefe executivo trabalha neste local. Cada área contém uma zona de poder, seja ela de dinheiro ou dominação.

Cenário de O Escândalo

Todas as locações são relacionadas ao ambiente da emissora, essencialmente redações e estúdios jornalísticos. A trama se passa na grande Nova York, em 2016. Ano das eleições para presidente nos Estados Unidos.

Aos poucos, o longa começa a destrinchar os desejos ocultos. As fofocas que se espalham rapidamente por e-mails, os sonhos dos apresentadores, além do glamour que a imprensa proporciona com o poder da fala. O roteiro nos mostra que neste ambiente sistêmico, no final, uma pessoa depende da outra, para a roda gigante da massa continuar rodando. 

As coisas começam a ficar mais quentes quando o candidato à presidência Donald Trump é afrontado pela âncora. Ele é questionado sobre o seu “ódio às mulheres”. A partir disto, uma enorme briga sistêmica cai sob ela, assim como a emissora, afiliada ao partido político do candidato. A questão é simples: o eleitorado apoia o conservadorismo da Fox News. Logo, o público não quer ouvir esse tipo de assunto.

Sobre mulheres, mas personagens afirmam não serem feministas

“Eu não sou feminista! Eu sou advogada”

Megyn Kelly

Ao longo do filme, várias funcionárias começam a expressar atitudes que repudiam o comportamento da emissora. Uma delas é Gretchen Carlson (Nicole Kidman), que apresenta o jornal sem maquiagem, com o intuito de enfrentar e debater sobre o estereótipo existente no mercado jornalístico.

Algo que me incomodou bastante foi a negação das personagens ao intitularem-se feministas. A história deste filme cria raiz diante da força destas mulheres, que mesmo em um período conturbado, combatem o medo denunciando um agressor. Embora a obra converse com os pilares do sistema de massa, é na voz do coletivo que está a chave-mestre para a mudança do arco dramático.

Apesar disso, em várias cenas os diálogos das personagens negam o feminismo, como se a palavra fosse uma doença indescritível e indesculpável. Há duas formas de enxergar esse posicionamento das personagens.

A primeira é que elas realmente não querem ser consideradas feministas. Ainda mais quando essa palavra é intimamente ligada à Hillary Clinton, concorrente de Donald Trump.

A segunda, é que de certo modo, o diretor “jogou o pó debaixo do tapete” e minimizou o real sentido da palavra.

Histórico do diretor

Feminismo e violência são temas delicados para serem dirigidos. Fico em dúvida se a direção de Jay Roach foi uma boa escolha. Mathew Jay Roach é um realizador e produtor cinematográfico norte-americano, responsável por grandes sucessos de bilheteria, como a série Austin Powers.

A franquia Austin Power foi lançada em 1997, nos Estados Unidos, pela New Line Productions Inc. Em geral, a trama é baseada em um personagem estereotipado com cenas cômicas. Veja no vídeo abaixo um trecho do filme.

Neste trecho é possível ver  Austin expressando grande interesse em sair com duas jovens asiáticas. Te Como e Me Come são irmãs gêmeas, que encontram o homem em uma festa. 

Atuação

O Escândalo é protagonizado por Charlize Theron, Nicole Kidman e Margot Robbie. Cada uma conquista seu espaço durante o desenvolvimento do filme. Um recurso fotográfico interessante utilizado pela direção foi a aproximação da câmera aos olhos do elenco. Com o objetivo de mostrar o “grito oculto da verdade”.

Um exemplo disto é a produtora Kayla Pospisil  (Margot Robbie), uma jovem que almeja a carreira de sucesso como apresentadora de TV. Ao longo do filme, Kayla é abusada por Roger Ailes e demonstra, através da expressão facial, seus conflitos interiores, tapados com a peneira para não perder o emprego.

Roteiro de O Escândalo

Unir conjuntos de interesse público e privado dentro do roteiro foi bem sagaz, para dar andamento à trama. Deste modo, é possível pensar na função do jornalismo e também quais são os interesses da informação na justiça. De modo negativo, em meio a tantos acontecimentos, é notável uma “confusão” no foco dos problemas no ambiente externo. Também seria agradável ter mais vozes que denunciassem, de fato, o chefe.

O Escândalo faz uma crítica profunda à objetificação do corpo feminino. O roteiro dialoga com os fatos verdadeiros e a ficção, por meio de imagens de arquivo.

Há uma personagem orelha – termo utilizado a quem sempre está conversando com os protagonistas – que merecia mais atenção. Uma jovem lésbica que esconde sua opção sexual dos colegas de trabalho, por medo da possível demissão.

Ao unir esses conjuntos, bem como temas polêmicos, é possível refletir e questionar: a justiça social é branca e hétero? A democracia é justa? Quem paga mais, leva? Quem está com o dinheiro na carteira agora?

Bom, de acordo com a Fox News… É sim! E o final deste filme mostra exatamente isso. A união traz mudanças, no entanto, há um sistema maior do que todos os símbolos sociais que governam o país.

Às vezes, os poderosos chefões podem pagar enormes multas para instituições ou pessoas físicas, mas esse dinheiro sempre esteve programado. Existe um roda gigante que comanda o mundo. O Escândalo fala sobre mulheres aventureiras e criativas, que decidiram comprar um ingresso para o parque.

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