Da ZN para a cena nacional: Imagreen retorna com qualidade no rap caiçara

2020 chegou e o grupo de rap undeground Imagreen, da Zona Noroeste de Santos, iniciou seus trabalhos. A aposta para o primeiro lançamento do ano foi o clipe da música Problemas Sociais, muito bem produzido por sinal.

Como o próprio nome já diz, os integrantes LM’C, Marijuana e Zilla relatam os transtornos que vivenciam na região. A música foi escrita e lançada em 2016, mas ganhou “vida” este ano, pois as dificuldades, segundo eles, permanecem.

Para expressarem isso por meio de imagens, os pontos de gravação escolhidos foram o Dale Coutinho, Divinéia, Comporta, 52 e palafitas. Ademais, imagens de drone do Sambódromo, locais que o pessoal da região conhece muito bem.

O Imagreen foi formado em meados de 2013 e já passou por várias formações. Foi numa esquina do Dale Coutinho, na ZN, que começaram a se encontrar antes de algum “rolê”, sempre para ouvir um rap, como Facção Central, Racionais, Sabotage e Dina Di.

Na mesma época, começava a onda das batalhas de rima. “Pegamos afinidade pelo gosto musical. Aí começamos a escrever um barato aqui, um barato ali e resolvemos investir. Eu já fazia música, o Zilla cantava funk. E foi isso”, explica Marijuana. O sentido poético do nome Imagreen significa a ligação da natureza das coisas.

Aproveitei para conversar com os integrantes para saber se há planos de mais lançamentos e atividades do grupo. A resposta: sim, e com muita qualidade, pois estão empenhados em destacar a cena local e conseguir um espacinho no cenário nacional. Eles também fazem uma reflexão acerca da cena do rap caiçara atualmente. Pega a Visão!

A música Problemas Sociais abriu os trabalhos do Imagreen em 2020. Em que momento ela foi escrita e o qual o objetivo de retratar esses problemas na letra?

LM’C: A música Problemas Sociais foi escrita e gravada no mesmo ano,em 2016. A gente tinha o objetivo de expor, dentro do rap, a crítica social, que é um alicerce permanente e redundante do hip hop, e pela localidade da onde a gente mora, nos vimos no dever de expressar isso para as pessoas que estão ao nosso redor. Muita gente conhecia o funk com as letras conscientes, e com o tempo isso se perdeu. Viemos com esse propósito, de resgatar os valores, do que é realmente importante para as pessoas! A letra retrata as mazelas e os fatores que fazem ela existir e permanecer. Independente que tenha melhoria ou não, os problemas sempre são os mesmos.

E quais são os problemas sociais da Zona Noroeste?

Marijuana: Além daqueles que a gente cita na música, é a falta de emprego, falta de moradia digna, de espaço físico para o pobre, para o negro periférico. Isso é o que a gente retrata, aquele que quem tem grana consegue hectares de terra e para nós aqui só sobra um pedacinho de lama na favela. Fora a questão da falta de políticas públicas culturais, educativas e esportivas para a molecada. Sem contar a questão de saúde que é fato em qualquer periferia.

E o clipe de Problemas Sociais está com uma produção bem legal. Vocês estão apostando nessa produção toda pra atrair público?

Marijuana: A gente pensou nessa produção não só para atrair público, como também para competir no cenário nacional, porque a cena tá bem avançada. A gente até demorou para lançar a música com o clipe pensando em ter a qualidade necessária para alcançar o “padrão” para competir dentro do mercado.

Qual é a visão do Imagreen sobre a cena do rap na região (ZN e Baixada Santista)?

Zilla: Acredito que na cena caiçara falta muita união e coletividade perto de outras regiões do país que vem estourando cada vez mais, como é o caso de Minas Gerais e Brasília, que não eram regiões com cenas em alta, mas hoje em dia têm um cenário forte.

A Baixada Santista, apesar de ter muitos personagens que praticamente estavam na fundação do hip hop no Brasil, como é o caso do Criminal D, do Paulinho e de vários b-boys que subiam para São Paulo no final anos dos 80, ainda possui a cena muito fraca.

E eu acho que não somente por culpa dos MCs, como também dos produtores que dão pouca chance aos artistas e da mídia. No geral, em Santos, a gente tem essa cultura de música de barzinho, sentar em um ambiente calmo e ouvir.

Falta, na questão do rap, uma agressividade da cena em todas as partes, seja dos MCs de chegarem com mais qualidade, dos produtores e da mídia que não dão ênfase nos artistas e do próprio público que só vai procurar o artista depois que ele estoura e não o apoia de início. São vários fatores que deixam o rap caiçara no amadorismo.

Vocês têm planos para lançamentos futuros, como álbum ou EP?

Zilla: No momento, estamos trabalhando em um novo clipe. Acredito que será lançado ainda no primeiro semestre deste ano. Já estamos com novas músicas prontas. A ideia é trabalhar com singles e clipes, e mais pra frente pensamos em lançar EP ou CD.

Marijuana: Também estamos nos programando para lançar nossa marca de roupa.

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