Mães de Maio encontram boas lembranças no Rap e no Funk

Coordenadora do movimento fala sobre aparecimento no clipe de Rashid e Emicida, e relembra nomes de MC´s da Baixada Santista que eram admirados pelas vítimas do massacre de 2006 

O clipe Todo Dia, do rapper Rashid, lançado em setembro, é uma música-manifesto sobre “lutar diariamente”. Ele traz uma mensagem de resistir às injustiças do Estado e da “filosofia branca que destrói”.

Um dos trechos da música revela um dado assustador.  “Tem noção que a cada 23 minutos, uma mãe preta fica de luto. Vidas que vão sem clemência ou tributo. Violência é o Produto Interno Bruto”?

E essa frase resume parte da vida das integrantes do movimento Mães de Maio na Baixada Santista. Por isso, elas foram convidadas para participar do clipe. 

Luta por justiça

As integrantes do movimento da Baixada Santista estão há 13 anos na busca por  justiça pelos assassinatos de jovens que foram mortos por agentes do Estado em cidades da região em 2006. Naquele ano, as vítimas foram alvo de uma rixa entre facções e policiais. Elas não tinham envolvimento com a situação, mas acabaram morrendo inocentemente.

“A produção Memória Viva entrou em contato solicitando autorização. Para nós, foi muito gratificante porque exigimos que essa luta seja de responsabilidade não só das mães, mas da sociedade. A gente sabe que muitos artistas saem da periferia, ganham status, mas precisamos que eles também façam o grito da periferia sair da garganta. Quando eu escuto o material que eles produziram me sinto contemplada. Eles ajudam muito a ecoar o grito das Mães de Maio”.

Coordenadora do grupo Mães de Maio da Baixada Santista, Débora Silva, de 60 anos, sobre as imagens do clipe Todo Dia.

Ela ainda diz que a visibilidade é um fator importante proporcionado pelos artistas que somam com o movimento. Também considera que eles ajudam a propagar a mensagem do grupo.

“Nós do Mães de Maio também aparecemos no clipe Chapa, do Emicida. E a gente mostra o trabalho dentro das universidades, quando estamos fazendo debates”, detalha.

Ex-Facção Central também cantou a luta

As Mães de Maio também inspiraram a música A Fantástica Fábrica de Cadáver, do Eduardo, ex-integrante do Facção Central.

Ele foi convidado para um evento do movimento em parceria com a Família 013, e cantou no lixão do Sambaiatuba, em São Vicente há cerca de cinco anos.

Na ocasião, o artista ganhou um dos livros das Mães de Maio. Tempos depois, elas ficaram sabendo que a leitura do escrito resultou na música. Neste aspecto, Débora afirma que “a arte ajuda a ampliar o grito do movimento”.

Música é memória viva dos jovens assassinados nos Crimes de Maio

O convite para participar de produções de artistas também desencadeia boas memórias em Débora e nas integrantes do movimento, porque elas conseguem recordar além dos momentos de luto.

“Quando eu vejo esses jovens artistas nos chamando para fazer parte do cenário musical, eu lembro do meu filho. Ele transformava a letra da música em nota musical. Ele era muito inteligente, tocava piano, violão… Então para mim a música é tudo”, relembra. 

Mães de Maio preservam memória de Mc´s da Baixada Santista

O filho de Débora não é o único a ser relembrado pelas produções musicais. A maioria das vítimas dos Crimes de Maio escutavam vários MCs, principalmente no ritmo funk, pois segundo Débora “nas letras das músicas eles colocavam a vivência da comunidade”. 

Ela conta que uma das integrantes do movimento, que morreu no ano passado, era apaixonada pelas músicas dos artistas, porque sua filha era funkeira.

“Ela até se desligava das atividades para ouvir música. A gente tinha que chamar sua atenção toda hora”, relata com empolgação.   

Músicas deixadas pelos Mc´s da Baixada Santista alegram o movimento Mães de Maio

MCs mortos em Santos

Ela lembra da memória de MC Duda do Marapé, MC Primo, MC Careca e MC Felipe Boladão, que também foram mortos a tiros, nas mesmas condições das vítimas de 2006, segundo aponta as pesquisas dos Crimes de Maio.  

“Foi muito simbólico, muito bonito. A música está dentro do movimento das mães. O rap é disciplina e a fusão do rap e do funk é unir o útil ao agradável. Jamais esquecemos dos MCs que gritavam pela periferia. Eles foram calados quando mortos, mas sempre louvamos esses meninos. Para nós, suas músicas são hino nacional das desigualdades desse país”.

Débora cita a música A Viagem como simbolo de música apreciada pelas Mães de Maio

Débora afirma que um dos episódios mais marcantes em assassinatos de MCs no Brasil, foi a morte do MC Daleste, em 2013.

“Depois disso se instaurou a cultura do medo nos MCs, e muitos começaram a cantar ostentação. E ficou mais aceitável, porque eles pararam de atacar o Estado, de falar da vivência da favela. A gente não aceitou isso, porque não aceitamos o consumismo, isso não vem da comunidade. Mas sempre relembramos a memória dos nossos MCs nos eventos. A molecada ainda canta as músicas deles”, afirma. 

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