Entrevista com Elza Soares: “Planeta Fome me dá liberdade de falar o que penso”

Elza Soares

Crédito: Marcos Hermes

Em 1953, quando tinha apenas 16 anos, Elza Soares participou de um concurso de música no programa do Ary Barroso, na Rádio Tupi. Na ocasião, o compositor a questionou: de qual planeta você veio? Elza não titubeou. O mesmo que o seu foi a resposta. O diálogo teve sequência com Barroso querendo saber qual era o planeta deles. Planeta Fome, finalizou a jovem.

Agora, aos 82 anos, Elza resgata esse termo e apresenta o seu terceiro álbum em cinco anos: Planeta Fome. E a boa notícia é que ele é igualmente incrível como os antecessores A Mulher do Fim do Mundo (2015) e Deus é Mulher (2018).

“Ainda é muito atual, infelizmente. Eu achava que fome fosse só de comida, mas não é. A gente tem fome de saúde, respeito, cultura. Estamos com fome de tudo. Eu estou faminta, o povo também está faminto. Pelo amor de Deus, chega de fome nesse mundo”, comentou Elza, logo no início da nossa conversa, na última quinta-feira, por telefone.

Quando perguntei qual era a maior fome no momento, a veterana não pensou duas vezes: “saúde”. “A fome de cultura é algo que me incomoda muito, mas a fome de saúde tá matando muita gente”.

Convidados especiais de Elza Soares

As 12 faixas que compõem o álbum mostram que Elza também está com muita fome de compor, cantar e expor todas as mazelas que atingem o mundo. Para isso, ela conta com as participações de nomes fortes do atual cenário nacional, tais como BaianaSystem, Virgínia Rodrigues, Pedro Loureiro, BNegão e Rafael Mike. “Eu que convidei todos eles. Adoro o trabalho deles, acompanho”.

Antenada nos últimos acontecimentos do País, Elza se mostra muito incomodada com a censura e o período sombrio para os artistas.

“Aquela situação na Bienal do Livro foi um absurdo, mas eu gostei da resposta. Não podemos ter medo. A resposta foi a melhor possível”.

Elza Soares

Para a cantora, a diferença entre o atual momento e o período militar está no direito de protestar. “A gente ainda pode gritar”. Na sequência, Elza cantou um trecho registrado em seu novo álbum.

Você deve rezar pelo bem do patrão. E esquecer que está desempregado. Você merece. Você merece. Tudo vai bem, tudo legal”. Esse trecho faz parte da faixa cinco, Comportamento Geral.

Três álbuns, porém, com a mesma sintonia

Os últimos dois álbuns de Elza, A Mulher do Fim do Mundo e Deus é Mulher foram considerados os melhores de suas temporadas por revistas especializadas e premiações nacionais e internacionais. Planeta Fome mantém a liga. “Eles conversam entre eles. São três álbuns que conversam”.

Para Elza, o desafio de superar duas obras tão elogiadas faz parte do seu desejo de falar.

“Eu vivo um momento que preciso falar. Enquanto me abrirem as portas, eu vou falando. Planeta Fome me dá a liberdade de falar o que penso. Não cito o nome de ninguém, não falo de política, eu detesto”.

Elza Soares

Tem problemas, mas daqui não saio

Outro assunto que incomoda bastante Elza é ver brasileiros falando que querem sair do país. “Pra que? Para viver no quintal dos outros? O Brasil é fantástico, eu amo o meu país. Não vou sair daqui. Isso é muito forte. Ir lá, mostrar quem eu sou e voltar, ok. Mas largar o meu país, jamais”.

Tal tema é abordado na canção Blá Blá Blá, com BNegão. “Me engana que eu gosto, me manda que eu posto. Se a reforma não passar, não vamos ter dinheiro pra contratar. Se a reforma não passar, o Brasil vai quebrar! É muito blá, blá, blá, blá, blá”.

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