Woodstock 50 anos #04 – O paradoxo do festival de 69

Apesar do Woodstock ter sido idealizado com objetivos comerciais com base no puro capitalismo empreendedor, ele se viu batendo de frente com o espirito da contracultura e ante materialista pregado pela nação hippie que invadiu aquela fazenda. E que para alguns, mesmo sem ter qualquer caráter religioso, tomou proporções bíblicas.

Para os envolvidos no projeto, essa dicotomia não fazia a menor diferença, uma vez que com todas as dificuldades e obstáculos, tudo conspirava para o sucesso do evento. O público, que inicialmente era para ser de aproximadamente 50 mil, virou 180 mil só em ingressos vendidos. E por fim, ninguém sabe ao certo, mas calculou-se na época que perto de 500 mil pessoas participaram do Woodstock naqueles famosos três dias.

Depoimentos e publicações

Mais da metade não tinha ingressos e entrou de graça, uma vez que por segurança e falta de estrutura o acesso foi liberado. Entre tantas e tantas definições e citações que deram ao Festival de Woodstock durante todos esses anos, algumas conseguem resumir com propriedade aquilo que aconteceu naqueles dias de paz e música. Abaixo seguem algumas delas.

Vocês passaram três dias debaixo de chuva, na lama e com fome e mesmo assim a paz, o amor e a música os mantiveram em soberba harmonia. Que Deus os abençoe

Max Yasbur, proprietário da fazenda que recebeu o festival

O festival de Woodstock constituiu-se no fenômeno sociológico de maior importância da era moderna. Revista O Cruzeiro, de outubro de 1970.

A publicação em fascículos As Feras do Rock, distribuída em meados dos anos 1990, destacou “antes e depois do verão de 1969 existiram grandes festivais de muitas qualidades, polêmicos e dignos de baterem vários recordes, mas Woodstock continua significando um momento único para a história do rock”.

O escritor e jornalista Rodrigo Merheb em seu livro O Som da Revolução foi mais completo e escreveu.

Woodstock foi a consolidação de um fenômeno que afetava os quatro cantos do planeta. Influenciando e subvertendo as culturas e o comportamento em escala mundial. Ele saiu da esfera da realidade rumo ao reino das lendas algo impossível de ser repetido, imune à contradições”

Rodrigo Merheb, jornalista, escritor e autor do livro O Som da Revolução

O jornalista Paolo Hewitt escreveu em seu livro 50 Fatos Que Mudaram a História do Rock. “A juventude dos Estados Unidos mostrou que era possível juntar e trabalhar em prol do bem maior. Isso fez com que Woodstock se transformasse no parâmetro utilizado para mensurar todos os festivais ainda hoje”.

Artistas comentam Woodstock

Mais objetivo, o cantor David Crosby, do grupo Crosby, Still, Nash e Young, declarou em seu livro Stand and Be Counted.

“Woodstock não foi um evento político no sentido tradicional do termo, mas foi tão grande que teve um impacto politico semelhante”.

David Crosby, do Crosby, Still, Nash e Young

A cantora folk canadense Joni Mitchel preferiu compor uma música intitulada Woodstock. Nela, canta: “no momento em que chegamos a Woodstock, éramos meio milhão, e por toda parte havia canções e celebração. Eu sonhei que vi os bombardeiros disparando no céu e eles se transformaram em borboletas nos céus da nova nação”.

Na poesia de Joni Mitchel, a nova nação era a Nação Woodstock.

Ainda nos anos 1980, o escritor Ricky Goodwin escreveu sobre Woodstock na edição Música do Século XX.

“Havia realmente uma magia no ar… Sensações de liberdade e libertação… A retrospectiva histórica dirá. 13, 14, 15 anos depois. É cedo. Quem sabe o símbolo se tornará tão lendário que seja luz – inspiração durante décadas. Sim, incrível como a memória daquele tempo reacende na alma de gerações a comunhão de ideias e o conjugar do sonhar”.

Depois de Woodstock reunir tantos artistas de diferentes estilos musicais parecia tarefa fácil, mas na época isso era quase impossível. Pois além dos deslocamentos em um país continental, boa parte dos artistas eram desconhecidos do grande público. E muitos só ficaram famosos depois de participarem do festival. Principalmente após o lançamento mundial do filme e dos discos.

*TEXTO POR ALDO FAZIOLI

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