Muito girl power marca terceiro dia de Santos Jazz Festival

Xenia França. Crédito: Jefferson Fernandes

Quem esteve por perto dos Arcos do Valongo neste sábado (27) pode sentir a vibração dos palcos a qualquer distância. Com um line-up feminino de peso, a música conquistou o público, que fincou os pés no chão até a última apresentação. Alba Santos, Sandra de Sá e Xenia França foram os destaques.

Embalados pela rumba e ritmos latinos, o show de Alba Santos e Aniel Someillan aqueceu a plateia do Santos Jazz Festival. Muito charme e dança embalaram os presentes, que puderam conhecer o projeto da dupla. Diretamente de Espanha e Cuba, o duo mescla suas referências musicais em perfeita sinergia.

A abertura parte de trabalhos solos de Someillan, que lançou seu primeiro disco, Quilombo, no ano passado. Bem conceituado pela crítica, o álbum segue uma linha instrumental. Todas as composições têm vínculo afetivo, contando as histórias do artista no Brasil.

Crédito: Jefferson Fernandes

O repertório do show, rico em influências da rumba, jazz e salsa, encerra com a última faixa do disco, Riacho Changüí. O artista comenta que a faixa foi feita em homenagem ao primeiro lugar em que viveu quando chegou no Brasil. Ambos dedicam a apresentação aos imigrantes que vivem no país, contando suas histórias através da arte.

Com um disco autoral prestes a ser lançado, Alba encanta com seu jeito doce e voz forte. Em uma versão de Dos Gardenias, escrita por
Isolina Carrillo e famosa ao som do Buena Vista Social Club, entrega-se em um dueto com Someillan que arranca fortes aplausos.

O projeto mescla em doses proporcionais a herança artística e cultural de cada um. Infelizmente, o tempo de show é curto para tanto a se cantar. O duo se completa em versos e harmonias, tornando a experiência do show riquíssima em palavras, cores e sons.

Crédito: Jefferson Fernandes

Xênia França manda a real

Para falarmos em energias positivas, temos que usar as métricas de Xênia França. Distribuindo cada parte do show como um ponto de ascensão à quinta dimensão, Xênia e sua nave espacial conduziram o público por uma experiência pop-psicodélica de causar arrepios.

Cada canção era uma vibração diferente. Xênia dança com a alma desde o começo, bradando pela representatividade com Preta Yayá e Pra Que Me Chamas. A percussão impecável embala o jazz com ritmos cubanos, que exalta a multiculturalidade e livre expressão de sua música. Seu álbum solo compõe o repertório, oferecendo uma experiência sofisticada, que só se sente assistindo ao vivo.

Crédito: Jefferson Fernandes

Entre várias pausas para conversar com o público, Xênia trata de todos os assuntos. Pede por mais amor, energia e positividade, ao mesmo tempo em que questiona a falta de respostas aos 500 dias da morte de Marielle Franco. Seu discurso é sempre pautado pelo empoderamento, buscando a conexão com o público, que retribui e se entrega aos pedidos da cantora.

Sinônimo de empoderamento

Em um discurso de quase cinco minutos, mesmo dizendo que esqueceu o que ia falar, ela fala sobre o tempo. “A gente precisa se auto responsabilizar pelo nosso agora. O agora é urgente, o agora já passou. O futuro só vai existir se eu estiver cravada no meu presente”.

Aproveita para falar sobre preconceito. “Vamos parar de perder tempo, vamos se auto centrar, se auto limpar desse monte de sujeira que a sociedade colocou na gente. Bora cuidar da nossa vida, lembrar de respirar todo dia, desapegar de tantos conceitos e tantas coisas”, afirma a cantora, ovacionada pelo público em seguida.

Crédito: Jefferson Fernandes

Xênia é a única artista que conseguiu silenciar todo o festival. De olhos e ouvidos bem atentos, o público acompanhou uma das performances mais sensíveis e sinceras do evento. Não a toa, o que faz Xênia França uma das maiores artistas de nossa geração não são os prêmios da crítica especializada, mas sim a força de sua performance e narrativa. Ela toca onde fere, e fala o que precisa ser dito em alto e bom som.

Empoderamento pra mim é quando você toma consciência do seu poder, da sua potência, e você usa ela ao seu favor, completamente. O tempo, na real, é até curto pro tanto de coisa que a gente tem pra aprender.

Xênia França
Crédito: Jefferson Fernandes

Xênia é gentil, sorri com os olhos e canta com a alma. Tem momentos introspectivos, como Reach the stars, cantada em inglês. Também diverte-se às tantas, especialmente em Respeitem Meus Cabelos, Brancos.

Ao fim da apresentação, se despede agradecendo à sua grande família, tecendo vários minutos de elogios a cada um dos membros da banda e produção. Sob fortes aplausos, deixa o público com aquele gostinho de quero mais.

Sandra de Sá e Elas fazem a festa

Crédito: Jefferson Fernandes

Se as duas apresentações anteriores foram puro charme e reflexão, Sandra de Sá, Simone Malafaia e Nanda Fellyx chegam pra descontrair. Com uma energia contagiante e um repertório tipicamente brasileiro, as três meninas esbanjam carisma e tiram o Jazz Festival para pular.

A rainha do soul brasileiro parte de Vale Tudo, original de Tim Maia, Usa e Abusa e Dançando Com a Vida.

“Se tu soubesse o valor que o brasileiro tem, tu tomava banho de alegria”, canta Sandra, renovando os versos da conhecida Mundo Negro. Pede por mais respeito, amor, cultura e alegria.

Sem egoísmo

Crédito: Jefferson Fernandes

Em muitos momentos, cede os holofotes para as músicas originais de suas duas companheiras. Faz questão de ficar na lateral do palco ou colocar seu microfone para trás, deixando Simone e Nanda em destaque.

Nanda mostra sua desenvoltura e potência vocal, acompanhando Sandra em muitos de seus icônicos agudos. Já Simone se destaca quando recita poesias, dando maior profundidade e realismo às canções.

As conversas entre as cantoras surgem naturalmente no palco, fazendo com que o público se sinta parte de uma reunião familiar. É com autenticidade e muita humildade que Sandra conquista a todos os presentes.

Falando em amor, o sentimento transborda nas brincadeiras e trocas de olhares entre Sandra e Simone. A química entre as duas é um doce complemento, principalmente em canções mais lentas. Quando cantam Ousadia, tiram onda sobre um possível terceiro elemento na relação. “Já aviso que não sou eu”, brinca Nanda, fazendo a plateia cair na risada.

Convidada especial

Crédito: Jefferson Fernandes

Ao notar uma fã mirim cantando na primeira fila, Sandra convida a menina ao palco. Sofia Betini, de dez anos, é fã da cantora desde pequena.
“Sempre acompanhei as músicas, ela é maravilhosa”.

Encantada com o gosto musical de Sofia, Sandra de Sá parabeniza os pais. “Precisamos de mais Sofias, e mais mamães e papais de Sofias”, comenta.

Na hora do bis, já com o público nas mãos, Sandra brinca com a saída de palco. “Vamo pular essa parte e vamo direto pro mais um?”. Segue com Olhos Coloridos, conquistando mais um coro em uníssono da plateia.

Na saideira, Sandra de Sá pede pensamentos positivos para Macau, o autor da canção, que encontra-se hospitalizado.

Trio e banda se despedem fazendo um bom samba, e Sandra manda um grande abraço, coberta com uma toalha do time do coração, o Flamengo.

Uma das arquitetas da música brasileira, Sandra de Sá encerra sua apresentação com a energia de uma menina. Deixa o palco com o sorriso estampado de quem só sabe trazer felicidade por onde passa.

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