O Mecanismo retorna ainda mais forte na 2ª temporada

Uma das grandes marcas da série O Mecanismo, em sua primeira temporada, foi a rejeição do público por conta, principalmente, de uma frase mal colocada. João Higino (Arthur Kohl), numa interpretação do ex-presidente Lula, assume uma fala que não teria sido dita pelo líder do Partido dos Trabalhadores (PT).

No entanto, em tempos de eleição e intolerância política, tal fato gerou revolta de eleitores de esquerda, que foram às redes sociais bradar contra a série. Entre as ações, chamou a atenção a campanha para avaliar mal a produção. Hoje, O Mecanismo tem abaixo de 90% de aprovação na plataforma, fato incomum para uma série como essa.

Justamente essa repercussão negativa com parte do público que dominou a coletiva de imprensa com o elenco (Kike Diaz, Selton Mello, Caroline Abras, Emílio Orciollo Netto e Jonathan Haagensen) e o diretor José Padilha, na última terça-feira, no Copacabana Palace, no Rio de Janeiro. Rendeu mais perguntas que a própria segunda temporada.

Ordem cronológica

José Padilha reforçou seu posicionamento como apartidário

Contudo, Padilha reconhece os efeitos da edição, mas se defendeu ressaltando que o seu posicionamento desde o início é que “o mecanismo” está presente em todos os partidos. Mas que a história segue uma linha cronológica dentro da própria Operação Lava Jato.

“Sempre falei que o PSDB era o mecanismo, que o PMDB era o patriarca do mecanismo, que o PT entrou para o mecanismo. Entre as condições necessárias que alguém tem de satisfazer para chegar à Presidência no Brasil está participar do mecanismo.”, defendeu ele. 

O diretor, inclusive, revelou que a própria abertura da série era para ter sido divulgada na primeira temporada. “Ela não foi ao ar na primeira temporada por questões de dúvidas. Aí, quando a primeira temporada não sofreu processos, a gente teve menos preocupação. Foi mais pelo ponto de vista jurídico”.

Chateação com o público

Selton Mello criticou o público que “bateu” nos atores depois da primeira temporada

Selton Mello saiu em defesa do elenco e criticou a forma como foram tratados pelo público. “É o nosso trabalho. Estudei muito cinema político italiano para poder gravar O Mecanismo. Lá tem um ator que já fez anarquista, extrema-direita, tudo que é papel. É a liberdade de expressão que tanto defendemos. Mas vi muita gente que defende essa liberdade nos atacando. Não foi legal ‘bater’ nos atores”.

Kike Diaz, no entanto, deixou o seu posicionamento claro desde o início: “Lula Livre! Fora Milicianos! Fora Familicianos”. E afirmou que a reclamação do público também faz parte da liberdade de expressão. “A série estreou em um momento turbulento, em meio ao período pré-eleitoral. Eles têm o direito de reclamar, não concordaram”.

Kike Diaz defendeu seu posicionamento político durante a coletiva de imprensa

Moro: De herói a salame fatiado

Quando questionado se pegou leve com o atual ministro da Justiça, Sérgio Moro, Padilha fez uma analogia com o futebol. “Comemoramos muito os pênaltis defendidos pelo Bruno, quando estava no Flamengo, contra o Botafogo. Depois, descobrimos que ele cometeu um homicídio. E as coisas mudaram. Temos que entender que estamos seguindo uma linha cronológica”.

Ainda sobre Moro, Padilha acrescentou: “Bolsonaro não tem maioria no Congresso e está negociando para aprovar suas reformas. Ele está usando Moro como moeda de troca. O Moro foi de herói nacional a salame fatiado, entregue em pedaços ao Centrão para aprovar a Reforma da Previdência”.

Crítica da segunda temporada

Foi mais de um ano de espera até o lançamento da segunda temporada da série O Mecanismo, da Netflix, que chega à plataforma nesta sexta-feira, com mais oito episódios inéditos. Com novidades bizarras na política nacional diariamente, fica impossível para os realizadores manterem a produção atual. Mesmo assim, o conteúdo apresentado segue polêmico e dando manga para muita discussão.

A segunda etapa de O Mecanismo ataca em duas frentes que estão interligadas. A prisão do empreiteiro Ricardo Bretch, em uma missão conduzida pela delegada da Polícia Federal, Verena Cardoni (Caroline Abras). E a busca incessante de Marco Ruffo (Selton Mello) ao doleiro Roberto Ibrahim (Kike Diaz), agora atuando em Ciudad del Este, no Paraguai.

Sim, Ruffo está vivo, mesmo após atirar na própria cabeça na primeira temporada. E, na segunda etapa, mesmo não estando oficialmente como policial federal, ele terá ações importantes.

Prisões de peso

A ligação entre os dois e suas delações premiadas podem levar a Operação Lava Jato para um outro patamar, atingindo grandes lideranças. A história todos conhecem. E, novamente vai agradar muitos. Mas também vai irritar tantos outros.

Todos aparecem bem representados na série. E os diálogos parecem muito reais. Mesmo sem utilizar os nomes verdadeiros, o público logo identifica os ministros do STF, os ex-presidentes Lula, Dilma e Temer, além de outras figuras da política como Aécio, Cunha e Moro.

A crítica aos políticos e empresários está explícita logo na abertura, na qual todos aparecem sendo presos (imagens reais), com a trilha de Reunião de Bacanas, de Bezerra da Silva: “Se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão”.

Ação no Paraguai

O ritmo colocado na segunda temporada de O Mecanismo garante cenas de ação muito bem gravadas. Ruffo, mesmo exonerado da Polícia Federal, não coloca limite na sua busca por Ibrahim, revivendo a perseguição de Gato e Rato mais uma vez.

Ruffo também está disposto a proteger a secretária de Bretch, na intenção de obter a agenda com todos os contatos e pagamentos de propinas. A atriz Helena Ranaldi, sempre bem nos seus papéis, aqui aparece como a advogada de Bretch.

Acompanhar o ritmo dos desdobramentos da Operação Lava Jato não é tarefa fácil. Mas o diretor José Padilha certamente tem conteúdo de sobra para explorar em futuras temporadas.

Claro que existem muitos fatores (custos, audiência, disponibilidade do elenco). Mas, se quiser, O Mecanismo alcança até os Simpsons em temporadas. E não é exagero. Vide os últimos acontecimentos da nossa política.

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