Festival Garotas à Frente eleva o Girl Power no Fabrique Club

PE - FESTIVAL-ABRIL-PRO-ROCK - GERAL - Show da Pussy Riot durante Festival Abril Pro Rock 2019, no Recife (PE), nesta sexta-feira (19). 19/04/2019 - Foto: MARCO MOURA/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Foto: Marco Moura / Estadão Conteúdo

Talvez seja a fama do coletivo russo Pussy Riot ou a audiência formada por casais, famílias e grupos de amigas, mas mesmo com uma proposta agressiva, a presença de Nadia Tolokonnikova e companhia em palco motivou mais flashes que moshpits. O grupo estreou em São Paulo, no último sábado, dentro do festival Garotas à Frente.

O nome do evento foi inspirado pelo livro homônimo de Sara Marcus, lançado pela mesma produtora, Powerline. Na obra, a autora trata sobre a história e essência do punk feminino da década de 1990, inspirado por bandas revolucionárias como Bikini Kill.

Na exposição que abria o evento, vários temas relacionados à questões de gênero. O espaço abrigou diálogos sobre expressão artística feminina, quebra de tabus e preconceitos. Versos como “meninas rebeldes mudam o mundo” estavam por todas as paredes, trazendo mensagens positivas e também reflexivas.

Ao atravessar as espessas cortinas, o espaço escuro abrigou palco, bar e estandes. Desde livros feministas até camisetas, bottons, manifestos, o espaço incentivava a liberdade de expressão e as discussões femininas. Do palco, a única coisa visível era um cartaz em laranja com escritos em preto “Quem Mandou Matar Marielle?”. A atmosfera sombria, escondida, deu maior profundidade aos temas abordados, além de aguçar a curiosidade pelas apresentações que estavam por vir.

A banda de uma só

Às 19 horas em ponto, Bloody Mary Una Chica Band começa sua apresentação. É realmente o que você leu, uma banda de uma mina. Com total naturalidade, Marianne Crestani chega discretamente e vai roubando a cena com sua performance carregada de talento. A monobanda conta com uma guitarra, uma bateria adaptada para ser tocada apenas com os pés e um microfone.

Marianne traz uma política de soluções ao palco. “O primeiro passo é a gente conseguir se organizar sem esperar pelo governo”, diz a artista. Como parte de outros movimentos independentes, ela atenta para a importância da união feminina. Brinda e se esbalda com uma Bloody Mary no rosto, deixando suas músicas falarem mais alto.

“Não importa o que aconteça, a gente sempre vai resistir”

Em seguida, a banda paulista Sapataria sobe ao palco. As quatro mulheres surgem como uma força da natureza, agitando o público e propagando tolerância com bom humor e entusiasmo. A proposta da banda? Falar sobre feminismo e lesbianidade sem tabu, ao som de muito punk rock e hardcore.

“Eu entrei num banheiro de um shopping e uma mulher começou ‘você é muleque’. Eu fiquei ‘não moça, eu só quero fazer xixi, eu sou uma moça, tá tudo bem’ (risos). Ela ficou causando, chamou o segurança e aconteceu um monte de coisa, e eu fiquei puta pra caralho. Aí eu fiz essa música, que chama MSB – Movimento das Sem Banheiro“, conta a guitarrista Marina. Para cada canção, Marina compartilha histórias e inspirações associadas. O show segue essa vibe conversativa e explosiva, intercalando entre conversas com a plateia e forte agito entre as garotas na plateia, dançando todas as músicas.

Ao som de Carta Aos Pais, a vocalista Zu rasga um livro que trata as relações homoafetivas como doença. A plateia delira, aos gritos de “ele não” e “Marielle presente”. A banda dá tudo de si no palco, encerrando sua apresentação com a canção 175, que fala de situações de violência contra a comunidade LGBTQ+ no Brasil e no mundo. Na introdução, a voz de Jair Bolsonaro fazendo comentários homofóbicos. Ao fundo, uma imagem do presidente com “ele não” cravado. A banda se despede amplamente ovacionada, agradecendo ao público e bradando por resistência.

Empoderamento pelas rimas

O festival faz questão de trazer discussões realistas e ressaltar o papel da arte na discussão social. Prova disso foi a apresentação da poetisa Ingrid Martins, que declamou seus trabalhos com paixão e sinceridade. A voz eloquente e a força nas palavras, mesmo entre pausas para reflexão, deixou a plateia sem palavras. A artista faz parte de movimentos de freestyle, em batalhas de rimas. Isso explica a precisão com que brinca com as palavras, falando sobre feminismo, trabalho e liberdade sexual.

O papo sobre a realidade brasileira prendeu o fôlego de toda Fabrique. Entre seus versos mais marcantes, Ingrid questiona: “Você corta vôos ou ajuda a dar impulso? / Sua faca anda cega ou sua faca corta pulsos? / Quem é você? / O que cê faz pra se julgar tão verdadeiro? / Você é o animal ou você é o açougueiro?“. Os textos honestos são seguidos por uma onda de aplausos merecidos, que despedem a artista e trazem a ansiedade pela atração principal.

Show agitado para plateia de celulares

O palco fica inteiramente escuro, contando apenas com iluminação do telão. Surge Nadia Tolokonnikova, embalada pelo ritmo que marca as canções da Pussy Riot. A plateia delira, acendendo o espaço com seus flashes. A partir daí, todos os passos de Nadia são seguidos pelos celulares.

O grupo faz questão de escrever no telão sobre a falta de liberdade na Rússia, comentando sobre o risco de prisão que sofrem a cada música lançada. O impacto visual é imprescindível, contando com a visão única de silhuetas e mensagens de protesto. “For the sake of resistance”, “Matriarchy Now” e “All Prisons Should Be Abolished” são algumas das frases que marcam presença, clamando pela resistência. Nestes momentos, os gritos de “Fora Putin” e “Fora Bolsonaro” são ecoados em sintonia por banda e público.

As dançarinas dinamizam cada canção, se unindo pouco tempo depois à artistas brasileiras convidadas, como Alma Negrot. Drag queer, Negrot é especialista em maquiagem e se destacou no palco com seu visual repleto de cores. Entre as coreografias, Nadia levanta faixas de Fora Bolsonaro e incendeia a plateia.

Mesmo sem entender o idioma, não tem como se perder no show: todos os refrões e trechos marcantes aparecem em inglês no telão. Com set bem recheado, a Pussy Riot apresentou mais de 20 canções. Entre elas, destaque para Punk Prayers, 1937, A White House, Bad Apples, Bad Girls, Track About Good Cop e Straight Outta Vagina. Escolheram Pong! para o bis, embaladas pela dança e por um mosh formado pelas garotas.

Altamente esperadas pelos fãs, as artistas se despedem deixando um gosto de quero mais. Mesmo dedicando-se mais às gravações do que à dança, o público saiu satisfeito, aplaudindo o grupo por mais alguns minutos após sua saída do palco. Depois de tantas expressões impactantes, o saldo do festival pende mais ao serviço público do que entretenimento. São situações como essas que ressaltam o poder da arte como discurso político, principalmente quando falamos de empoderamento feminino. Quanto girl power!

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