Primeiro Acorde #26 – Lily Allen, resiliente e “sem vergonha”

Lily Rose Beatrice Cooper, popularmente conhecida como Lily Allen, tornou-se um ícone pop por suas músicas irreverentes, sinceras e criativas. Quase 13 anos após o lançamento do primeiro álbum, que trouxe alguns dos principais hits de sua carreira, a cantora britânica busca por redenção após várias turbulências pessoais, um livro bem polêmico e seu mais novo lançamento musical, No Shame (2018).

Nascida em Hammersmith, ao oeste de Londres, Lily vem de uma família de artistas: seu pai, Keith Allen era um comediante; sua mãe, Alison Owen, produtora de cinema; Alfie, o irmão, é ator, que ficou conhecido por interpretar Theon Greyjoy em Game of Thrones; Angela McCluskey, vocalista das Wild Colonials, é sua madrinha. Ah, Lily também é prima de terceiro grau do cantor Sam Smith, mas ambos não sabiam disso antes da fama do cantor.

Lily estudou em 13 escolas e foi expulsa de muitas delas por má conduta (especialmente por beber e fumar). Enfrentou problemas familiares, em especial o abandono do pai, que resultou em tempos difíceis morando em conjuntos habitacionais. Com 11 anos, conheceu Rachel Zeffira, cantora e compositora premiada ainda em começo de carreira. Creditada posteriormente como sua mentora, Rachel lhe ensinou a cantar e fez com que Allen participasse da apresentação de Dumbo em um concerto escolar.

Lily aprendeu a cantar, tocar piano, violino, guitarra e trompete. Abandonou a escola aos 15 anos e resolveu dedicar-se unicamente à música, com medo de desperdiçar sua vida aprendendo ofícios que não pretendia exercer. Mesmo recusada por diversas gravadoras, Lily batalhou muito até alcançar o estimado contrato com a EMI, em 2005, mas competia o tempo da gravadora com bandas como Coldplay e Gorillaz. Como se previsse o futuro das mídias digitais, a cantora apostou no MySpace para postar suas primeiras demos, que foram sucesso absoluto: depois de atrair milhares de fãs, rendeu a produção de dois mixtapes e uma cobertura na revista The Observer, em 2006. Alguns sucessos como LDN, Smile, Knock ‘Em Out e Alfie fizeram parte desta primeira fase.

Seu álbum de estreia Alright, Still foi lançado em 2006, incorporando os singles lançados em suas demos e composições da cantora. Allen convenceu a gravadora de seu potencial, detendo a maior parte do controle criativo sobre sua produção. Dispostas no iTunes, as canções do álbum e o vídeo de Smile rodaram vários canais televisivos. Mesmo sem ter sido lançado oficialmente nos EUA à época, o disco foi tão ouvido que entrou para a lista da Entertainment Weekly dos 10 maiores álbuns de 2006.

Alright, Still foi um sucesso comercial, além de um marco imediato na carreira de Allen. A versatilidade entre as músicas, partindo do reggae de LDN até o ska/pop do hit Smile, consolidou a artista como uma hitmaker – uma máquina de hits. As letras variam de críticas afiadas a relacionamentos que deram errado, como em Friday Night e Shame For You, até reflexões sobre a quebra dos sistemas políticos e financeiros, em Everything’s Just Wonderful.

Em 2009, lançou seu segundo disco, It’s Not Me, It’s You. Aqui, Allen começa a expressar com maior clareza suas desilusões pessoais em suas canções. Com Not Fair, He Wasn’t Here e I Could Say, abre o jogo sobre decepções amorosas e sexuais. Mais longe do ska, Allen se jogou no pop com os singles 22, The Fear e Fuck You, que se tornaram grande sucesso nas rádios. Em 22, ela critica os dogmas sociais, assim como faz em The Fear, onde contesta o materialismo e as farsas midiáticas; Com Fuck You, direciona suas críticas ao governo Bush, a quem dedica um “fuck you very very much” bem especial.

A fama veio rápido e atingiu Allen de maneira tóxica. Assim como Amy Winehouse, Lily enfrentou sérios problemas com bebidas e drogas, uma mistura que lhe traria diversos problemas em pouco tempo. A má fase começou quando a cantora perdeu seu primeiro filho, George, ainda com seis meses da gravidez. Em entrevista à Hello Magazine em 2018, Allen se abriu sobre esta fase da vida: “eu fiquei traumatizada e acho que nunca vou me recuperar disto”. Ela mal teve tempo para ficar de luto, pois 13 meses depois, deu à luz uma menina, Ethel. A filha enfrentou problemas de saúde, e no meio de todo esse turbilhão, Lily engravidou de sua segunda filha, Marnie. O casamento com Sam Cooke enfrentou turbulências, partindo do estresse pós-traumático e da depressão da esposa.

As dificuldades financeiras e as confusões pessoais pareciam determinar o fim. Durante a turnê de It’s Not Me, It’s You, Allen abusou de entorpecentes e se envolveu em inúmeras gafes, incluindo traições ao marido que se tornariam públicas posteriormente. Gastou seu dinheiro com prostitutas caríssimas, hesitou em usar drogas mais pesadas e buscou desesperadamente pela atenção da família. Quando voltou, resolveu tentar se dedicar à casa, mas os problemas econômicos continuaram a assombrá-la.

A resposta para o desequilíbrio familiar foi o lançamento de seu terceiro álbum, Sheezus (2014), uma produção bem diferente de seus dois primeiros álbuns. Além de ter migrado para o synthpop, as novas canções focam em conflitos com outros artistas e suas frustrações como mãe e esposa. Dos cinco singles lançados, apenas Hard Out Here e Air Balloon alcançaram posições expressivas nas paradas britânicas, sendo o primeiro muito controverso.

Inicialmente, Hard Out Here foi aclamada pela crítica por abordar temas feministas, falando das dificuldades das mulheres modernas no mercado artístico. Depois do lançamento do videoclipe, a música sofreu retaliação pela forma como Allen estereotipa dançarinas afro-americanas e asiáticas com poucas roupas. Ela foi acusada de racismo – anos depois, refletiu sobre como este caso foi importante para que ela entendesse outras formas de feminismo e suas diferentes necessidades.

O ano de 2015 trouxe mais uma onda de problemas para Allen. Ela enfrentou um divórcio, sofreu abuso sexual de um empresário e ainda teve sua casa invadida por um stalker que pretendia matá-la. Depois de tanta dor e problemas, a cantora se afastou das redes sociais e tentou concentrar suas energias em dois produtos: um novo álbum e um livro biográfico.

Allen lança então No Shame (2018), seu álbum “sem vergonha”, onde abre o jogo sobre todos os rumores que cercavam os trágicos acontecimentos de sua vida nos últimos anos. Ela faz do disco seu divã, trazendo relatos sobre sua relação com o ex-marido, seus problemas com drogas, a culpa materna que sente e o colapso de suas amizades. Com críticas positivas, No Shame mescla o reggae que inicialmente fazia parte de suas composições com eletrônica e rap. O álbum ainda conta com participações especiais de artistas como Giggs, Burna Boy e Lady Chann. Entre os singles estão Trigger Bang e Lost My Mind.

Em 2018, também lançou My Thoughts Exactly, um livro de memórias que desnuda todos os acontecimentos de sua vida. A obra veio ao mundo para livrar Lily de seus demônios, falando abertamente sobre relacionamentos, família, drogas, carreira e saúde mental. Entre vários traumas e muita confusão emocional, a artista conta através do livro como sentiu a necessidade de ser honesta consigo mesma e com o mundo:

Então, essa sou eu. Lily Allen.
Eu sou mulher. Eu sou mãe. Eu fui esposa. Eu bebo. Eu usei drogas. Eu amei e fui decepcionada. Eu sou um sucesso e um fracasso. Eu sou compositora. Eu sou cantora. Eu sou todas essas coisas e mais.
Quando as mulheres compartilham suas histórias, […] as coisas começam a mudar para melhor. Esta é a minha história.

Uma mente criativa presa aos assombros do passado, enfrentando uma batalha de cada vez por meio da arte. Neste ano, a cantora embarca na turnê de divulgação do último álbum, que foi selecionado para o prêmio Mercury ainda em 2018. Para Lily Allen, a música continua sendo sua terapia – e com sorte, será também sua solução.

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