Poesia e Rock # 17 – O Keith Richards de Passa Quatro

MANOEL HERZOG

Indo cas molecada pra São Thomé passar Natal, paramos numa dessas bibocas mineiras de queijo e linguiça, na beira da estrada em Passa Quatro. Íamos em cinco.

Pedi sanduba de linguiça e coca pra todos. Já arrotados, solicitei ao atendente um taco do queijinho que repousava sob um tule no balcão, com a solenidade de um defunto que não pode ser conspurcada pelas moscas. Ele cortou um taca e me ofereceu. Ambrosia perde.

Mas antes de falar do queijo importa destacar o original que era o próprio atendente: magro, alto, um jeito de jovem num corpo de velho, rosto amassado por rugas que ou se deviam a uma vida louca, ou ao trato diário na roça, que é bruto. Atribuí a velhice precoce à vida louca, por conta de dois insólitos brincos de imitação de diamante encastoados nos lóbulos de suas orelhas. Cabelo desgrenhado, falando em gíria, umas roupas meio indianas, aquele visual hippie. Qualquer delicadeza por trás daquele jeito de maluco. Um sósia do Keith Richards.

À primeira dentada no queijo de sabor amanteigado mandei uma conclusão precisa:

“Vaquinha Jersey?”

“Uai, comé que cê sabe?”

E deu-me um sorriso de cumplicidade e comunhão, como se reconhecesse ali o irmão de uma confraria oculta.

“Mantegado.”

“É, as vaquinha do Pai é tudo Jersey. Só gosta dessas, de leite amarelim.”

Acabei a degustação, nem me foi cobrado o queijo, agradeci, louvei a arte do queijeiro senhor seu Pai, e seguimos viagem.

Curti uns dias em São Thomé ca molecadinha. Voltei pelo caminho mesmo e, sem que eu lembrasse, calhou de parar na mesma biboca. Só que não fomos atendidos por Keith e sim pelo Pai, um senhorzinho bem tradicional. Comemos os pães com linguiça e voltei ao queijo, lançando de novo a pataca da vaquinha Jersey. O velho ficou felicíssimo com minha demonstração de know-how, mostrou fotos das vaquinhas, contou da vida na roça, do amor que tinha pelo sítio, etc. Mas cobrou exatos R$ 3,53 do pedacinho de queijo. E ainda me empurrou, sem grande esforço, duas peças do quitute, e garrafas de uma pinga alambicada ali mesmo, e gomos de linguiça, doce de leite e quase que a biboca toda. Nisso Keith Richards entrou. Ficamos de prosa ali, o velho cortando o filho bem rude a cada intervenção. Pra ser simpático, lembrei:

“Eu tive aqui na ida, lembra? O cara que falou das vaquinhas Jersey.”

Keith abriu um sorriso, achei que fosse me abraçar.

“Almoçaro? Eu que fiz o rango.” – apontou pras gôndolas de uma refeição a quilo.

O velho, animado com minha gastança, pôs-se a oferecer itens extras:

“Se quiser comprar um cordeiro ou leitão, o sítio aqui na frente é do meu filho. Se quiser comprar moto, meu outro filho tem uma concessionária em Baependi. Se precisar de implemento agrícola, tem outro filho em…” – e seguiu até com oferecimento de salgadinhos pra festa, que não sei qual filho tinha um buffet.

“Que beleza, meu senhor. Todos filho formado. Mas parece que este aqui que é seu braço direito.” – pontei de beiço pra Keith.

“Hum. Este não casou. Fazer o quê, Deus quis assim.”

Dali ele enxotou Keith pra dentro, e lá foi ele, submisso ao Pai, herdeiro de Sua arte, passar pano nas coisas, lavar a louça, fazer o rango pra amanhã. A vida na roça é muito dura, foi essa dureza que vincou o rosto daquele Keith Richards de Passa Quatro. Não a vida louca.

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