Poesia e Rock #12 – Meus discos, meus livros e nada mais

MANOEL HERZOG

Eu tive uma coleção de discos invejável. LPs. Pareava, fosse em qualidade ou quantidade, com a de livros, nos idos tempos de minha adolescência. Tinha ainda um relógio cuco, herança de minha avó, uma estatueta do Zé-Pelintra, em chumbo, e vários badulaques.

Por volta dos 25 anos fui acometido de uma crise de depressão muito da grande, pelo que me vi obrigado a rever diversos conceitos. O primeiro deles o marxismo dialético, sim porque eu sempre fui esquerdista, mas nem sempre crente. Como sói acontecer a todo um que passa perrengue, garrei com Deus na fé. Mas, até chegar ao um catolicismo progressista, andei demais nos caminhos da religiosidade. Os primeiros passos levaram-me de encontro ao livro de um grande esoterista, daqui de Santos mesmo, cujo nome não recordo, mas de sua biografia abstraí ser ex-sargento da Policia Militar e pai-de-santo. Referido mago tinha mandado publicar um singelo volume de ensinamentos, que devorei, a despeito de um manejo sofrível do idioma, pois que se fazia compensar da utilidade dos princípios ali insculpidos.

O Mago foi quem me apresentou o conceito de Imperil. A palavra é pouco conhecida, a maioria dos dicionários não a registra, mas numa busca ao Google já se encontram referências. De toda sorte, simplifico aos curiosos: o Imperil é uma espécie de ectoplasma do mal, materialização de uma energia negativa e destruidora, uma gosma astral que se cola nos objetos e os contamina, fazendo contaminar também o incauto que venha a manipular tais objetos. Assim, numa casa onde impere a discórdia, os talheres, copos, pratos, cadeiras, estão impregnados de imperil. Aquela zica braba que todo antiquário tem, quem seja mais sensível e entre num sabe do que falo.

Lido e relido o opúsculo revelador, fui procurar o Mago. Tenho de longa data essa mania de ir atrás, feito um caçador de autógrafos, dos autores que me impressionam. Talvez eu nutrisse a esperança de um dia ser procurado por leitores, o que, hoje espero, não acontecerá. Aos menos leitores perturbados como aquele jovem que eu fui.

O Mago, vaidosíssimo de ter sido lido, a exemplo de todo escritor que se preze, atendeu-me com notável gentileza. Ali vi como são carentes os pobres escritores. Retribuindo minha consideração, franqueou-me notável aula de esoterismo, entre incensos e defumadores brabos, e figas de guiné e quetais, por onde eu pude descobrir que o que me atacava o perispírito era o imperil acumulado em meus objetos, notadamente os discos. O livros também, e nada mais.

Assim foi que eu doei, a bem de me libertar daquele veneno astral, toda a minha discoteca à obra social do Mago, que ajudava muita gente, garantiu-me. Tinha O Grande Circo Místico, de Chico e Edu Lobo, um disco raríssimo. Tinha tudo do Queen, do Led Zeppelin, da Bethania, Caetano, Gil, Mutantes. Clube da Esquina eu tinha era os dois. E mais um monte de coisa legal. Sinto uma falta desgraçada dos meus discos, mormente quando me ataca uma suspeita, hoje apaziguado e mais descrente, de que o Mago era um picareta.

Por sorte os livros, por quem desde então nutria um apreço mais que à própria vida, estes não os doei. Mas deixei com o Mago minha estatueta do Zé Pelintra, do que não me arrependo. O relógio cuco de minha avó, uma raridade, eu dei pro meu vizinho chileno, e sofri muitos anos de ter feito tamanha desconsideração, sofrimento que se agravou com a morte de minha avó.

Nunca mais revi meus queridos discos. Os livros ainda os tenho, acrescidos de milhares de outros que fui juntando pela vida. Seu imperil não melhorou nem piorou minha vida em picas. Já o relógio cuco, estranhamente me voltou às mãos. Um dia antes do golpe no Congresso, quando um bando de picaretas iria votar o afastamento da presidenta eleita, depois consolidado no senado por outro bando de picaretas, o chileno reapareceu. Fazia 21 anos que não o via. Trazia nas mãos o relógio cuco, meio avariado, mas razoável.

“Te veni devuelver. Esto te pertenece.”

Contou-me de tudo de ruim que tinha havido em sua vida, o chifre da mulher, o filho drogado preso, a ruína financeira, só desgraça. Algo me sugeria que ele estava impressionado e atribuía ao meu objeto parte boa de seu infortúnio. Melhor assim. Fiquei feliz de ter meu cuco de volta. Tá aqui no escritório. Minha vida não mudou picas. Só o país, que ficou uma desgraça depois do golpe, mas lá vou eu culpar um relógio por isso?

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